Viver é urgência! www.marcellossilva.com.br
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

domingo, 10 de março de 2019

Uma criança de 80 anos

Foto: Hermeson Oliveira
Ele estranhou aquelas pessoas diferentes chegando na pracinha do bairro pacato. Pessoas comunicativas e jovens com equipamentos tão estranhos. Ele observou de longe a priori. De acordo com o avançar da hora em que os jovens ligavam seus equipamentos, ele se aproximava da praça com seus passos curtos. Sempre cauteloso e observador, sentou no último banco de concreto.

Aquela pracinha tão esquecida, pequenina quase sem vida com seus sólidos cinzentos, agora uma grande imagem era projeta e a meninada chegava aos montes, esbaforida com suas curiosidades nos olhos inquietos.

− O que é isso tia, o que é... É um filme é? − Perguntou um dos meninos.

− Sim, sim é um filme muito massa, espere um pouco e já vai começar − respondeu uma das organizadoras com voz angelical.

Ele, no entanto, permanecia observando aquelas cenas, em silêncio, estranhando deveras, aquele movimento, aquela grande imagem projetada... aquele som sendo testado. Permaneceu ali. 

Agora a praça já vibrava aos sons das crianças. Meninos e meninas de todo o bairro parecia estar ali querendo saber o que se passava. Tudo pronto e o filme iria começar. As crianças se acalmaram sentando em tapetes, mantas e colchas no chão. Ele aproximou mais um pouco. Em seguida mais um pouco e ficou entre as crianças. Observou a projeção e seus olhos fixaram na imagem numa mistura de curiosidade e encanto. 

Ele devia ter entre 70 e 80 anos de idade. Tinha os passos curtos, porém rápidos. Ele vestia uma bermuda preta e uma camisa azul aberta e sobre sua cabeça um boné que lhe cobria os olhos pequenos. Ficou ali imóvel observando as cenas do filme animado. No seu tempo de criança, numa cidade interiorana e sem energia elétrica, certamente não tinha uma TV sequer e agora ele tinha aquela tela enorme e aqueles bichos falantes no seu colo. Naquele instante ele era apenas mais uma criança dentre as demais.

A exibição do filme “Zootopia – Essa cidade é o bicho” já estava quase na metade quando de repente ele se levanta, ajeita o boné e sai rápido da praça. Adentrou aquela rua com a penumbra das luzes fracas. Cinco minutos depois ele retorna segurando a mão de uma criança, sua neta, provavelmente. Sentou no mesmo lugar e apontou para projeção dizendo algo ao ouvido da neta. Ela riu. Eles riram. Eram duas crianças embriagada na animação. Dividiram a pipoca e o suco no seu cinema particular e a céu aberto. Ele era uma criança, sem estilingue; Era o rei de Zootopia.... Como dizia o subtítulo do filme: “aqui você pode ser o que quiser”.



Matéria relacionada:


Filhos da maré

@malusantos
Ainda é noite e Chaval dorme em seu silêncio secular de pedra. Daqui a pouco a maré sobe e é preciso pegar carona com ela para buscar o sustento entre os mangues ao alto mar. Maria do Rosário foi a primeira que acordou e preparou o quebra-jejum. O Galo assustou-se, limpou o bico no orvalho da cerca e cantou, dando início a uma orquestra de cantos galináceo no Bairro do Porto da Missa. A maré vinha logo ali, cheirando a brisa da madrugada.

Antônio Ubiratã pulou da rede e correu para quintal, acendeu sua lamparina e procurou seu carro-de-mão onde agasalhou seus apetrechos: tarrafas, linhas, remos, motor, bornais, etc. A canoa já o aguardava, valsando nas águas calma do Porto.

50 anos de pescador e Ubiratã ainda teme a maré. Respeita cada palma de água. Aprendeu no bailar das ondas, o próprio significado de sua existência. Que o homem é apenas um fio na grande teia da natureza. Um dia tem peixe, outro não. Um dia a maré está calma, no outro você come sal pelo nariz. Aprendeu a respeitar os ciclos das marés e entender as fases da lua e, a partir disto, entender que a vida imita esses vai-e-vem de coisas e pessoas.

Desta vez, a maré demorou mais do que o previsto. Lambeu os beiços das calçadas baixas da rua. O sol já vem surgindo e Ubiratã enche sua canoa com seus equipamentos, comidas e sonhos. Serão quase dois dias nas marés, arranchado nos mangues, pescando peixe entre pernilongos sedentos por suor. Na Canoa, além dos equipamentos, ele leva esperança e deixa na margem um pouco de saudade. Rosário acena para o marido que vai sumindo entre os manguezais. “Que Iemanjá te proteja” diz ela em silêncio, ajeitando a saia e voltando aos seus afazeres doméstico. 

SILVA, Marcello. 2019

Aos Heróis de Minas

Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais /reprodução
Enquanto as montanhas sagram lamas pelos poros, vomitando desesperança pelo vale, outrora verde, homens vestindo coragem desafiam o próprio limite do corpo e da mente na tentativa de amenizar tamanha dor e desilusão neste pedaço de Minas.

Desde do cão Thor, policiais, civis voluntários e bombeiros, principalmente. Esses últimos que não têm rosto e nem nome. Vestem marrons e rastejam sobre a lama a procura de um sopro de vida, quando não, por um corpo apenas que amenize a dor de uma família. Heróis cansáveis com suas máscaras contra o mau cheiro. Eles choram de exaustão e dor diante da imensidão de lama; diante do corpo humano desfigurado pela cobiça; diante do seu salário parcelado em três vezes e seu 13º ainda sem previsão. 

Esses heróis machucados e que sangram, mas esquecem sua própria dor em prol da dor de outrem, diante do cenário desolador. Heróis sem HQ e sem aplausos que tem sede de água e de justiça. Heróis que se reconhecem na face enlameadas do seu próximo entre os galhos. Heróis que vibram com o aceno de um resgatado, seja ele um homem ou um cão. Heróis que amam a vida em sua mais ampla definição. Nem mil medalhas serão suficientes para recompensar teus esforços nesses últimos dias e dos dias que ainda virão.

Bombeiros de Minas, Maranhão, São Paulo, Rio... Em Brumadinho se tornam uma única corporação: Heróis de Minas e eles vestem a esperança de um país que ainda mantém a fé em acreditar em dias melhores.

SILVA, Marcello. 2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

Meu herói não veste capa

(a Otalício)

Meu herói não nasceu nas EUA. Não tem história registrada em quadrinhos e nem virou filme algum.
Meu herói não veste capa, mas, usa uma camisa surrada e suada pelo sol nordestino. Tem cheiro de suor típico dos deuses africanos.
Meu herói não tem visão de calor ou raio-x, pelo contrário, tem hipermetropia de mais de um grau.
Meu herói, feito de carne e osso, tem dor no peito de tanto capinar na roça e seus braços, ao anoitecer, latejam.
Meu Herói não usa máscara, tem suas rugas á mostra, sinal de sua humanidade.
Meu herói ronca, chora... Sente frio. Fica feliz com as chuvas de janeiro e triste com a estiagem de agosto. 
Meu herói... Ah meu herói, não sabes o quanto de metáforas te dedicaria...

SILVA, Marcello.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Oito invernos - Marcello Silva


Teu silêncio é o canto mais sublime que minha alma ouve, minha graúna, que alça voos infindos sobre as tardes tropicais. Tens no semblante observador todas as incógnitas do futuro e ainda assim, traz-me paz no instante presente em que rir, timidamente, entre dentes de leite e outros não (vão) .... Rir, rir no hoje, faz do agora seu voo rasante. 

Oito invernos já. Oitos chuvas. Oito sóis. Oito primaveras. E não era ontem que estava nos meus braços tão pequeninha? Tão frágil... Tão sem plumagem? E agora rabisca no tempo a própria imponência e seu próprio voo. “Veja pai, minhas asas. Já quero voar” 

Não. Não. Você é ainda minha pequenina graúna, querendo colo e com medo dos trovões. Meu peito sempre será seu ninho, quando você precisar vai está a sua espera, não importa a quantidade de invernos ou intensidade deles, estarei lhe aguardando para lhe agasalhar com minha própria pele, se preciso for. 

Lembro quando te peguei nos braços a primeira vez: tive medo de você se desmanchar nas minhas mãos. E como se eu segurasse a própria essência de Deus. Morri e renasci naquele infindo instante de alguns minutos, talvez. Esqueci razão, proporção, tempo, distância... qualquer conceito. Era só eu e você no universo multidimensional. Quando retornei a mim, eu ri... eu sorri deliberadamente e desde então eu sorrio para te ver sorrir. 

Das primeiras palavras pronunciadas; os primeiros passos; a primeira queda de bicicleta ao primeiro texto produzido ontem ou as resoluções matemáticas: é uma honra está ao seu lado e te auxiliar em seu processo de evolução neste plano, em seu voo pleno por estas planícies.... É uma dádiva, ave minha. 

Concluo parafraseando Jose de Alencar[1]: “Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Cecília. Cecília, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da Jati não era doce como seu sorriso...”

SILVA, Marcello. 
P.S.: Texto dedicado a Maria Cecília Nunes Silva


[1] Escritor cearense (1829-1877). Autor do livro Iracema (publicado em 1865)


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Ubatuba: deus de água


Não sei se aprendi primeiro a andar ou nadar; se corri primeiro nos pastos infindáveis entre carnaubeiras ou atravessei a nado as águas turvas do Ubatuba, o rio intermitente que passava no quintal da casa dos meus pais. O rio nasce na região serrana/norte cearense. Sua nascente fica próximo ao distrito de Ubatuba em Granja, daí seu nome. Desde a serra até seu desaguar na maré de Chaval, o rio percorre aproximadamente 60 km, passando por diversas comunidades, dentre elas a minha querida Poção (o próprio nome da comunidade remete ao rio, pois quando ele apartava na estiagem ficava uma grande poça, uma “poção”)

O Rio Ubatuba está ligado diretamente à condição de existência da comunidade Poção. Numa região que sofre com seis meses sem chuva (julho a dezembro) o rio se apresentou, durante muito tempo, como a principal fonte de água para subsistência da comunidade e a referência se o ‘inverno’ (conhecido regionalmente como período chuvoso que compreendem os meses de janeiro a junho) era bom ou não, mensurado pelo nível das cheias (vazão) e o mês que ele ‘desceria com água’.

Recordo os dias de ‘inverno’ que, ansiosos, esperávamos pela ‘água nova’ que desceria no Ubatuba. Bastava chegar janeiro que, a cada chuva a expectativa aumentava. O Cheiro de terra molhada sob os pés descalços na ribanceira do rio. As vezes ele aprontava com a gente e resolvia ‘descer com água’ a noite. Acordávamos com aquele barulho de água nas pedras ou nas moitas de oitis e de um só pulo descíamos as ribanceiras. Mas se tinha uma sensação indescritível era ver a água surgindo, aos poucos, no leito seco. Ver aquele filete de água ganhando vida e logo depois se tornar aquele deus de água, é algo que eu nunca saberei descrever com as minhas singelas metáforas.

Por duas vezes tive medo do Ubatuba: 

A primeira foi em 1998 quando ele rompeu a ribanceira e ameaçou derrubar nossa casa. Relembro a aflição de minha mãe e os familiares ajudando a recolher os animais domésticos; meu pai guardando as ‘coisas’ no alto do telhado. A água ficou a dois palmos do peitoril de tijolo cru. Na frente tinha (ainda hoje tem) um campo de futebol, lembro que ele ficou sob água, e onde nós passamos aquele dia brincando de bola. Toda comunidade parecia estar ali. Aquele dia foi louco (rsrs). Naquele ano mudaríamos de casa. Nos afastamos um pouco do Ubatuba. 

A segunda vez foi em 2009 quando se registrou a maior enchente da história do rio. Ultrapassou todos os limites imagináveis, causando estragos durante toda sua extensão: das serras granjenses às marés chavalenses. Casas, roçados, animais... foram devorados pela fome do rio. A casa dos meus pais ficava a quase dois quilômetros do rio, por detrás um morro e mesmo assim ele veio até perto, parecia que nos procurava. Ficou a cem metros, vomitando água e barro. Encarei seus olhos e tive medo. “Agua não tem cabelo” gritava minha vó.

Hoje resido a quase 100 km do Rio Ubatuba, porém quando possível retorno ao seu leito, não importa se cheio ou seco, preciso estar lá para recarregar meu espírito de criança que ainda corre por lá entre as pedras e as ribanceiras escorregadias. Essa rotina cheia de hora marcada vai aos poucos consumindo nossa criança. É preciso voltar no tempo, reviver boas lembranças para que não morramos de tanto ‘hoje’. É preciso reconectar a deus... ao Ubatuba. 


Marcello Silva, 2018


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Crônica | Buk, as galinhas e o despertador.


Abril. O sol matutino aquece a manhã de outono. Há algazarra de pássaros na mangueira enquanto as galinhas ciscam no jardim de girassóis. O mato verde circula a casa-de-sapê bem construída. Os detalhes na parede bem talhada a mão e o teto de palhas agasalhadas simetricamente evidencia o primor do trabalho artesanal aplicado na construção. Na sala de estar, sobre a mesa de imburana, alguns livros e frutas. Na parede há fotos de crianças sorridentes. Há redes e tucuns armados pelos cômodos.

Na cozinha, jogos de panelas dependurados, um fogão a lenha e inúmeros acessórios interioranos. O cheiro de café sai porta a fora e invade o quintal onde dois seres humanos se entreolham: ela troca o adubo da horta de hortaliças enquanto ele, de livro em mãos, declama Vinícius: “que seja eterno enquanto dure…” a voz arrastada ecoa no vazio do quintal ao encontro dela que ri, maliciosamente. Ela devolve a gentileza com um olhar de candura.

Os rostos enrugados e os cabelos grisalhos de ambos, meios aos sorrisos e olhares, se complementam, já algumas décadas, deveras. Detalhes…

A paz é quebrada quando Buk, o cão serelepe, chega correndo com insistentes latidos atrás das galinhas por entre os canteiros. O casal observa a cena. Depois de inúteis intervenções, eles juntos gargalham das traquinagens de Buk.

Trim lim lim trim…” o som do despertador me acorda. Mais um devaneio. Mais um sonho! Um dia de trabalho na selva de concreto está a minha espera. Levanto-me.


SILVA, Marcello. 2017
Image: Reprodução da obra de Everaldo Romano

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Crônica | Primeiro Porre de Amor.


O primeiro amor é tão tentador quanto o primeiro gole de álcool, bem como, pode ser arriscado e doloroso. Crescemos e ficamos suscetíveis cada vez mais a este mal traquino.

O primeiro amor é gole desavisado. Enchemos a cara de um amor eterno e único. Que porre! Em seguidas doses secamos a garrafa de rum. Que leveza! O coração, taquicárdico, flutua. Ligamos o wifi e enchemos nossas redes sociais de declarações e vômitos poéticos. Que porre!

Parece não existir mundo ou vida antes e depois daquele instante. É o agora infinito resumido naquele gole de amor. Beija-me com o beijo de tua boca porque é melhor teu amor do que o vinho 

Tantas adegas para serem conhecidas. Tantos sorrisos, abraços... Afagos. Quantas infinitudes iguais a estas se farão nessas mesas de am(b)ar? Quantos porres de amores ainda teremos?

Maldita ressaca, a primeira. Parece o fim do mundo a primeira desilusão de amor. Se for para doer tanto assim, nunca mais bebo disto. Que porre!

Doce engano de se enganar outras vezes. Mais uma vez, outras garrafas de amores. Desce mais uma. Anota aí, seu Zé. Hoje estou para essa ‘droga’ de amar.



1 Cânticos 1:2


COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crônica | Último Gole

Na praça do centro, monótono no fervilhar de pessoas que vem e vão a lugares diversos, um homem sentado no banco central, em estado avançado de embriaguez, destampa uma garrafa e toma mais um gole de um coquetel alcoólico. É março e o cheiro de álcool divide espaço com o cheiro de chuva.

O sujeito toma seu gole e acena para o vazio como se pedisse a alguém que viesse ao seu encontro. Poderia ser eu ali, sentado com toda insanidade da minha lucidez, afogado na loucura da sobriedade, acenando para meus monstros cotidianos e invisíveis.

Não. Não posso me aproximar do “sujeito homem” embriagado, tenho medo de me reconhecer nele. Sua dor pode ser a minha, seus medos podem ser os meus... Pode ser eu que esteja ali, vestido de desilusões e egos vazios, sedento por um gole de álcool que alivie meu cansaço de sóbrio.

Ele chora, bate no tórax como se quisesse arrancar algo do lado esquerdo do peito: sua dor, talvez. Mais um gole desce pela garganta ébria como uma espada afiada que aumenta o sangramento e a dor. Enquanto pessoas passam alheias àquele universo conflitante contido naquele banco central da praça, me compadeço daquela figura humana cuja face me lembra o reflexo do meu espelho. 

Ele se levanta, toma seu último gole e sai cambaleante a um destino desconhecido.  


COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Crônica | Um latino-americano - Jailson Jr.


Ontem eu encontrei o velho Quincas, o jardineiro que trabalhara em minha casa quando morei em Pedro Juan Caballero. Bebia meu chá-mate em um conhecido café de Montevidéu, e meu espanhol nunca me deu problemas. Falou dos cinco anos que não via Belchior, o velho latino americano de quem éramos amigos. Falamos dele, de como fazia a poesia com amor. Todo mundo conhecia aquele poeta famigerado, bastava ouvir ou ler algo dele. Lembro da nossa última conversa, do último aperto de mão. Andava angustiado, mas feliz por voltar à velha Sobral para uma visitinha, lá o encontrei. Mostrou-me os versos de algo inédito, ainda faltava a melodia, segundo ele, mas eu sabia que aquilo estaria longe de ser um problema. 

Foi uma tarde toda, misterioso e certeiro. Voltei para casa, já sabendo que seria nossa conversa derradeira. Não era fácil vê-lo. Ele era assim. Algum compositor baiano lhe disse que tudo era divino, tudo era maravilhoso, e ele acreditou. Denomino-o assim: divino e maravilhoso. Andava com canções do rádio gravadas à ferro e fogo no inconsciente, que sempre cantava quando não havia o que dizer, o que era raro. 

Aquele velho amigo era o mais existencial dos homens, devo dizer, depois de Sartre. Todos que conheço sabiam de algum verso dele, e isso sempre encheu meus pulmões de orgulho. Agora por último eu não o via mais, nem mesmo pela televisão. Respeitava seu espaço. Suave e intenso. Naquele mesmo dia do café com o Quincas, fiz alguns versos durante o voo de volta ao Brasil. Soube da partida do meu velho amigo por uma televisão do aeroporto, quando voltei. Só consegui chorar dentro do táxi, enquanto a paisagem nua ia passando pela janela que estava embaçada por uma garoa antecessora, com Paralelas na minha sonoplastia mental. Se medisse as palavras e não quisesse agredir ninguém, não seria ele. Autenticidade e brandura não combinavam na pessoa dele. 

Não irei no velório de meu amigo, seria demais. Melhor assim. Deixo-o em seus versos sangrantes, que mal detinham o sentimentalismo, quando o fazia. Essa é a última lembrança que quero levar. Basta que eu escute seus versos sem o pudor em controlar o volume, que valerá por trocentas outras conversas, ele ressuscitará por uns seis minutos, voltará de onde estiver. Foi como quis ir, recluso, ensimesmado. Muitos não sabem, mas ele queria assim, era feliz assim. E sabe, Copacabana? Essa semana o mar é ele. Aquele bigode largo e livre fará falta, mas fazer da vida uma poesia reproduzida será das artes a mais humana. Como foi perversa a juventude do meu coração. Acho que agora abriram o sinal, e a juventude dele se libertou. Sempre.

Mais sobre o amigo autor Jailson Jr. (AQUI)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Crônica | Preso o maior assassino de “corrente de internet”


Foi preso na manhã desta quarta-feira, na região central da cidade, José Otariano Verídico mais conhecido como “Zé Delete”. Sobre o dito-cujo, recaem inúmeras acusações: segundo a polícia local, são mais de cem assassinatos de “correntes da web” só este ano. Estivemos na delegacia e fizemos uma entrevista exclusiva com Zé Delete. Confira a conversa na íntegra:

Reportagem: Segundo o delegado, você é acusado de assassinar “correntes na internet”, procede?

Zé Delete: Sim, senhor! Sou eu mesmo. Sou bicho ruim.

Reportagem: Como começou essa vida de assassino? A primeira vez que você deletou uma corrente de internet ?

ZD: Faz tempo, senhor! Comecei no e-mail. Todo dia recebia e repassava. Teve um dia que o meu ‘PC’ “deu pau” e não repassei o e-mail que era sobre um cara que tinha caído no tanque da fábrica da coca-cola e tinha ficado todo corroído. Enfim, aquilo me deu náuseas.

Reportagem: E o que aconteceu a partir daí?

ZD: Fiquei apreensivo por não avisar os amigos. Andei pensativo pela cidade. Entrei no primeiro bar e bebi  um porre de coca-cola. Não aconteceu nada. Me senti  livre e desde então virei vida louca. Deleto tudo... Não repasso...

Reportagem: Continue Sr. Verídico...

ZD: Verídico é o c@r@lh*, meu nome é Zé Delete...

Reportagem:  Ok , ok... Continue.

ZD: Pois é... Comecei a matar as correntes. Matei aquela da agulha contaminada no cinema com vírus da AIDS... Aquela outra para salvar as baleias do Atlântico... Sem remorsos.

Reportagem: Mas você passou do e-mail para as redes sociais, não é isso?

ZD: Sim, sim. Foi quando apareceu o Orkut. Não divulguei a comunidade da campanha em prol da operação urgente da Silvinha que só tinha dois meses de vida, etc. Depois veio o Facebook e aí aumentou os assassinatos. Já sei que vou pro inferno por não “curtir”, “compartilhar” e nem comentei “amém” na postagem de uma foto que tinha Jesus  e outro moço de chifres. Preferi “só olha” e “ignora”. Também não compartilhei a imagem de uma garotinha que possuía “lapitospira’ que a cada compartilhamento, o Facebook doaria 10 centavos à família da criança... Enfim, são tantas correntes delatadas e ignoradas.

Reportagem: Mas seus índices de assassinatos aumentaram agora com o surgimento do Whatsapp, correto?

ZD: É verdade. Com o avanço da tecnologia aumentou também o número de idiotas que repassam. Fazer o que né?! Só aumenta minha ficha criminal (risos)

Reportagem: Lembra algum assassinato de corrente pelo WhatsApp?

ZD: Com certeza, senhor! São vários né... Tem aquela da capivara maconheira; do “hoje é o dia nacional da admiro você” que tinha que compartilhar com 20 amigos; o da batalha dos anjos contra as forças do mal que é pra compartilhar com 15 amigos pra forças do bem vencer;  tem aquela que compartilhando, a bateria do celular iria carregar automaticamente ou ganharia créditos da operadoras de telefonia... Tem a Buda sorridente para receber dinheiro... Enfim.

Reportagem: E como vai ser para sair dessa...?

ZD: Sou Zé Delete, tio. Vou sair daqui e vou voltar “pro corre”. Deletar, ignorar, deletar... Nasci pra isso...

Nota: Ao final da reportagem o delegado responsável nos informou que a situação de Zé Delete é grave, entretanto, a defesa já havia entrado com pedido de habeas corpus  e ele, provavelmente, aguardará o julgamento em liberdade. Enquanto isso nossa sociedade de alienados estará a mercê  de uma fora da lei de alta periculosidade (sapiência) como Zé Delete. Não podemos deixar isto acontecer. Sendo assim, curta, comente e compartilhe esse post até chegar às autoridade competentes. A cada curtida será doado 10 reais para pagar advogado de acusação de Zé Delete. Não se esqueça de digitar “Amém”.



SILVA, Marcello. 2016

P.S.: "esta é uma obra de ficção baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade"

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Crônica | Dona Birica


(à Vó Birica)

“Ah meu filho, estou muito cansada...” é a frase dela mais usual, ultimamente, depois de ter “criado” doze filhos, além de cinco outros que morreram antes de completar um ano de idade. E ainda ajudou a matriarca dos Araújos a ‘criar’ o seus.
Seu nome é Maria, igual a tantas outras ‘Marias da Conceição’. O Silva é o detalhe que a torna de aço. Ela casou aos quinze anos, ficou viúva aos sessenta e em sua vida, incorporou uma heroína digna dos melhores roteiros hollywoodianos.
Hoje, aos 83 anos, 12 filhos, 37 netos e 48 bisnetos, ela contempla o silencio enquanto espera a água ferver para seu café mágico. Cansada e dolorida, mas, inquieta. Levanta ás cinco horas da manhã para seus afazeres domésticos. Por vez, desconfio que não seja humana: como pode tal bravura?
Seu corpo, de que matéria é constituído? Cada cabelo branco e cada ruga em seu rosto é uma página da vida, uma lição aprendida, cuja experiência foi preciso cravar na pele para que outrem, ao observar, também aprenda que a vida, para ter sentido, é preciso ser construída de desafios, batalhas e obstáculos quase intransponíveis.
De tudo, o que mais admiro é seu silencio que me cortam as metáforas... Aquele olhar para o vazio que esconde mistérios que jamais decifrarei. Não sei o que pensa. Se sente saudades de ontem ou se sonha com o amanhã.
Enquanto isso, o café já está pronto e ele tem gosto de flores e cheiro de fadas. Acho que, um pouco da sua essência, escapa em tudo que ela faz.


SILVA, Marcello. O Pescador. Chiado Editora, 2015. 102 p.

P.S.: Dona Birica faleceu último dia 09 (Novembro de 2016)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Crônica de Natal | O Menino Augusto


Há três anos seguidos que Augusto esperava pela visita do Papai Noel. Aquele bom velhinho de voz rouca e roupa estranha, assim como ele era descrito pela professora. Nas outras ocasiões, Augusto dormira cedo e por isto, não viu quando o Noel passou. Mas, dessa vez seria diferente. Já com nove anos, ficaria acordado a noite toda, pois sonhava cada vez mais com sua bicicleta vermelha.


A noite chegou devagarzinho, com sua fome de loba, ingerindo a poeira crepuscular do dia interiorano. Augusto, de olhos atentos nos céus, nem quis jantar. Ceia? Não. Apenas, uma mistura de feijão, arroz, farinha e peixe pescado no açude defronte a casa. Nada ali lembrava o natal das histórias dos livros, que eram lidos na escola. Casa de taipa com lamparinas pelos cômodos. Não tinha chaminé. E por onde o Papai Noel desceria? 

A cada “estrela cadente” o coração de Augusto disparava. Não era. A noite foi se engessando a medida que eram apagadas as lamparinas, uma a uma. Restou silêncio e escuridão. O frio começou a incomodar a esperança daquela criança que acreditava no sonho de ter uma bicicleta vermelha. Mas, como? Papai Noel existe?

Pouco a pouco, a noite vencia Augusto. O galo já havia cantado, isto significava que era madrugada e as lágrimas quentes descia pelo rosto frio do menino que soluçava, desaguando a criança que até então, habitava ali... No Alpendre adormeceu.

SILVA, Marcello. Natal do Castelo Literário. Ano 2015 - Editora PenDragon

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A última quimera

Engana-se quem pensa que o respirar seja o último ato de vida. Há tantas formas, horripilantes de morrer, mas, certamente a mais desgraçada seja aquela em que, ainda, é fogosa a respiração e os ‘sentidos’ biológicos permaneçam em pleno funcionamento.


Morre, miseravelmente, aquela insana criatura que já não mais sonha, que não tem algo pelo qual esperançar. Morre lentamente o homem que não rir da insignificância; das metáforas; das rosas; das pedras... Do silencio até. Morre aquele cujo infinito agora é um amigo estranho de face fugidia. Morre em desventura, o ser infame que não sonha com a possível glória do amanhã. 

Morre, diariamente, milhares desses indivíduos e que, como zumbis, perambulam sobre a existência. Se não sonhas, se não acreditas, se não tem esperança, então não vives! Lamento dizer... Corpos ambulantes cujas almas exalam mau cheiro pela face da terra.

A esperança é a última quimera e ela sobrevive ao homem. O corpo se vai, mas, ela sobreviverá nos sonhos de outrem.




O Pescador - Chaval, junho de 2015

As três meninas

Não sei qual das três é a mais menina, tão faceiras assim, como poderei diferencia-las? Três mulheres e algo em comum, não sei é a “covinha” do rosto ou o jeito simples de andar. As duas meninas menores é a quarta geração, contada a partir da menina maior. Entretanto, entre elas, duas outras gerações de ‘Marias’ completa o ciclo.


Quantas mudanças nesse, quase, um século de diferença entre elas. No entanto, alguma coisa permanece como sempre e sempre permanecerá assim. E como permitir um diálogo entre elas sem notar o choque de geração? Inevitável. Uma faz paçoca de torresmo no pilão de pau d’arco e as outras ingerem achocolatado industrializado; uma brincou de boneca-de-pano e a outras duas brincam em aplicativos de tablet e smartphones; uma não teve oportunidade de estudar, as outras já querem aprender inglês.

Mundo, vasto mundo, em que volta agora tu estás?! A menina mais velha transborda sabedoria, as meninas mais novas tem sede de conhecimento. Como chegar a um acordo ou o que dizer a elas? Não, é São Jorge matando o dragão! Não, são crateras causadas por meteoritos! Sim, lobisomens existem! Não, lobisomens não existem, isto é lenda!

Enquanto isto, degusto meu café feito por uma das ‘Marias’, cuja essência, é repassada de geração em geração do princípio à eternidade...


*Dedicado a Maria da Conceição, Maria Cecília e Alessandra

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Rua Afonso Pena

A princípio poderia ser, apenas, mais uma Rua Afonso Pena dentre as dezenas existentes no Brasil. Mas, não. Não está situada no bairro Pindorama na cidade de Parnaíba-PI. Esta rua tem suas peculiaridades que a torna única. Pista estreita, retilínea e asfalto negro igual a tantas outras. Mas, é a sua gente, é o seu povo que vivem suas casas ou desfilam por tuas calçadas, que faz a diferença.

A rua acorda antes do sol, às 5:00 horas da manhã os passarinhos começam a disputar atenção com a voz rouca do peixeiro: “olha o peeeeixe!”. Aquele grito entra no meu sono como uma pedrada. É o primeiro alarde do despertar do dia. Às 06:00 horas é a vez do senhor da tapioca, cuja face e nome também desconheço, porém, sua voz reconheço a quilômetros. E ele insiste em parar em frente ao portão e gritar algumas vezes: “tapiooooca!” e este é um tapa no meu último sono. Desperto. Tenho vontade de ir lá dá bom dia ao senhor e comprar algumas tapiocas para ver se são tão boas quanto as que minha avó faz, mas, aquela preguiça matutina não deixa. Ainda tenho meia hora. É quando passa o “homem do cuscuz” e o grito desse é mais hilário e eu não saberei descrevera aqui. Tive que ouvir por uma semana para compreender o que dizia: “cus...cuzzzz!” algo assim. O cuscuz eu já provei e é bom, claro que não se compara com o cuscuz de milho feito na comunidade Poção (Chaval/CE), mas, é apreciável. 
 
A Afonso Pena é uma reta, em cujo asfalto, além dos vendedores ambulantes, também passam pessoas “normais” sem gritos e sem pressa alguma. Nas calçadas nos finais de tarde se observa cadeiras, conversas... Café. De vez em quando aparece um “engraçadinho” se sentindo o dono da rua com sua moto “envenenada” empinando pneu, se exibindo... Caindo. 
 
Nos finais de semana tem os famosos “espetinhos”, são uns quatro ao longo da rua, além dos assados de carnes, baião e feijoada, neles também são vendidos um sarapatel e uma panelada que são coisas absurdas de boas.
 
‘Eita vidão!’ sentar na calçada ao domingo e observar o movimento de pessoas, coisas, sons... Vidas. Rua Afonso Pena parece um ser com vida própria, em cujas vias (veias) pulsa um sangue negro de concreto.
 
P. S.: Afonso Pena foi presidente do Brasil entre 1906 e 1909.
 
Marcello Silva – PHB, 01 de Fevereiro de 2015.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Futebol amador – A inexplicável paixão

Quando trouxe o futebol para o Brasil, talvez Charles Miller não imaginasse a proporção que este esporte ganharia aqui em terras tupiniquins. Hoje, longe dos grandes palcos e espetáculos futebolísticos, este esporte tem função essencial na vida cotidiana dos brasileiros. Em cada terreno baldio, fundo de quintal, ruas, várzea... Enfim, tem alguém jogando bola, pelada, rachão etc.

Aqui, chuteira é artigo de luxo e o fardamento é a pele suada encoberta de poeira. Ou se joga no time A de camisa ou no time B sem camisa. A bola é só um detalhe, basta que seja uma esfera que role e se terá gente correndo atrás dela. Alguns detalhes são peculiares do futebol amador: dentre os quais poderemos citar que, aqueles que possuem melhor técnica e/ou habilidade são os primeiros a serem escolhido, quando se forma os times e os que não são tão íntimos da pelota (ruins mesmo..rs) vão quase sempre para o gol; quanto ao tempo em que se transcorre a partida, quem determina em sua maioria, é o ambiente natural: quando escurece ou o sol esquenta etc. Discussões fazem parte é mais um ingrediente nesta mistura. De vez em quando acontecem alguns “empurrõezinhos” para dá mais emoção, porém, logo se esfria os ânimos e a bola volta a rolar.

Longe dos salários milionários das estrelas desse esporte, aqui não se ganha nada financeiramente, exceto quanto se aposta refrigerantes e o time A venceu, mas chamou o time B para também “molhar a garganta”. Afinal, são todos vencedores. 

E como explicar tal paixão? Como descrever ou compreender o porquê que crianças, no intervalo da aula, debandam no sol quente atrás de uma bola? Como um pai de família, depois de um dia exaustivo de trabalho, encontra ânimo para duelar com outros por uma esfera que rola saltitante em fuga?

O que faz 10, 20 ou 30 pessoas correrem atrás de uma única bola? Dirão os ‘entendidos’ que, ao praticar este esporte, o corpo humano libera a endorfina, o hormônio que nos dá sensação de prazer. Talvez.

Poeira, sol, lama, noite, chuva... Nada disto diminui esta paixão exacerbada do brasileiro pelo futebol amador. Agora, em algum canto desse Brasil de dimensões continentais, tem alguém reunindo os amigos para correrem atrás de uma bola. 

“Bora marcar um joguinho pra sexta?”


Foto: Frederico Haikal

Gotham City a beira do caos

Onde estão teus heróis Gotham City? Em qual dessas pedras teu Batman se esconde? O comissário Gordon se vendeu por uma secretaria em cargo comissionado e os vilões se multiplicam por teus logradouros. Emanam de tuas vias sanguessugas sem grandes poderes sobrenaturais, exceto o de desviar verbas públicas e sugar tuas veias. 

O Coringa, com seu sorriso pérfido, agora persegue teu povo. Ele rir da ignorância (inocência ou medo) de tua gente. Mentirosas criaturas plantaram esperança e agora engendram medo. Enigmático final da charada que ninguém sabe. Quem vai rir por último? Porém, para responder essa indagação é necessário admitir que exista um fim. Será que haverá fim para tua angústia, Gotham City? 

Tuas noites são mais longas e temerárias e teus dias mais exauridos e incertos. Trilhamos a beira do caos. Quem irá nos salvar? O Chapolin Colorado? Não, ele não faz parte do catálogo da DC Comics. 

Enquanto Bruce Wayne se acovarda, os morcegos sanguinários (criaturas da noite) devoram teus sonhos e tuas esperanças, Gotham City. Para saber o que será de ti e de tua gente é necessário esperar o próximo capítulo deste filme insano e interminável. 

Marcello Silva – 29/10/14

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Don Juan

O Don Juan nasceu antes mesmo de vir ao mundo, quando no sexto mês de gestação de sua progenitora, foi identificado seu sexo. O Pai logo fez maior algazarra: “Esse vai ser macho igual ao pai”. Dalí em diante todo tratamento e considerações de “macho” se dava a prole por vir: quarto pintado de azul; carros de combate e tanques de guerras; bolas de futebol; espadas... Coleção de Star Wars.

Quando foi para escola arranjou “namoradinha”. Era o orgulho do pai: “esse é meu garoto”, “cuidado com suas cabritas que meu bode está solto”, “é isso ai filhão”. Na telenovela ele via o galã “pegando” várias garotas... Garotas. Garotas por todo canto, desde os comerciais de cervejas às amantes de seu pai.

Seu pai podia ter várias mulheres. Sua mãe só podia ter seu pai. Ficou confuso... Leu a bíblia: “... a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará” (Gn 3,16); mesmo casado com Rebeca Abraão tomou outra mulher chamada Cetura; por quatorze anos de serviços Labão deu suas duas filhas, Raquel e Lia, a Jacó. (...)
Aos 13 anos, seu pai o levou a boate da esquina e pagou a mais experiente prostituta. Afogaram sua inocência. Ele gostou, voltou outras vezes. Adiante, conquistar era seu ofício. Ele sentia necessidades de galantear, de provocar sorrisos, gracejos e arrepios na alma feminina. Seu lema era “pegar e não se apegar”. Seu ego suplicava olhares feminis, bocas entreabertas implorando beijos... Cheiro de pele. Na arte da conquista, com seu olhar roubava inocências e incendiava corações; com sua lábia eloquente persuadia meninas, mulheres e senhoras. Era apenas mais uma para alimentar seu instinto de macho. Macho Alfa.

Prossegui sua busca tentando provar para si mesmo que era possível conquistar mais. Ele destruiu namoros, casamentos e causou intrigas. Conquistou mais... Mais.

Até que um dia se descuidou... Apaixonou-se. Foi seu fim. Sentiu na pele a dor causada outrora. Chorou, implorou e pediu amor. Recebeu migalhas...

Hoje é casado, pai de quatro filhos e o mais fiel dos maridos.

Marcello Silva. Chaval/CE - 2014