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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Entre a Dor e a Poesia: Uma Resenha de Homens, sombras e sobras de Josiel Barros.

A obra Homens, sombras e sobras, do escritor piauiense Josiel Barros, reúne dez contos impactantes que mergulham sem hesitação nos abismos e nas complexidades da masculinidade contemporânea. Longe de propor uma visão romantizada ou linear, o autor expõe o homem em suas condições mais extremas: ora como vítima, ora como algoz, transitando entre a brutalidade e a extrema fragilidade diante de dilemas sociais e existenciais profundos.

O grande diferencial do livro reside no seu lirismo de Josiel Barros, que também possui uma sólida trajetória na poesia, revela em sua entrevista ao Dilson Lages do Círculo Literário Entretextos que tomou a decisão consciente de transpor a força das metáforas, das aliterações e das figuras de linguagem para a sua prosa de ficção. Essa escolha confere à obra uma alta densidade estética. A começar pelo próprio título, a repetição do fonema "s" em "homens, sombras e sobras" evoca, segundo o autor, o som do cansaço, do suor e do esgotamento físico e mental de homens reduzidos à condição de "sobras" ou resíduos sociais. Essa atmosfera poética é projetada logo na abertura de cada narrativa: o autor adota a estratégia de iniciar seus contos com frases e parágrafos de forte impacto — verdadeiras "flechadas no coração do leitor" — para capturar imediatamente a atenção e tirá-lo da zona de conforto.

Os temas abordados por Josiel Barros destacam-se por sua profundidade e relevância social, tratando de feridas abertas na sociedade moderna. No conto "Noite de Natal", por exemplo, o autor contrasta a riqueza material de um gerente com a miséria espiritual de sua solidão, culminando em um comovente e lírico momento de reconciliação familiar após a devastação causada pela dependência química. Em contraponto, o doloroso conto "A casa" funciona como uma poderosa metáfora sobre a velhice e o abandono de idosos; nele, a iminente perda física da residência construída com o suor do pai simboliza a própria dissolução da família e o apagamento de suas memórias. A violência urbana e a negligência do Estado ganham contornos trágicos em "A fotografia", conto inspirado na onda de homicídios que abalou a juventude da região litorânea do Piauí, denunciando o caráter cíclico da criminalidade.

Outro aspecto que enriquece a profundidade do livro é a relação íntima entre as personagens e o espaço geográfico. Os cenários piauienses, especialmente a cidade de Parnaíba, incluindo cartões-postais como o Porto das Barcas e a Ponte Simplício Dias, não servem como meros panos de fundo descritivos. Eles agem como projeções psicológicas e extensões do corpo e da alma dos protagonistas.

Homens, sombras e sobras consolida-se, portanto, como um espelho desconfortável, mas fundamental. Através de uma escrita refinada e despida de excessos, Josiel Barros consegue extrair beleza do drama humano, transformando dores cotidianas em grande literatura. Uma leitura super recomendada.