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sábado, 14 de março de 2026

"Nem Tudo São Flores", um grito de Fábio Keller.

 


O livro Nem tudo são flores, do escritor Fábio Keller, representa uma mudança significativa na trajetória do autor. Conhecido por obras ambientadas no universo do sertão e do cangaço — como Guardiões da profecias: A contenda do sertão, A caçada a Lucius, Bento: lua de sangue e Contos do sertão nos tempos do cangaço — Keller apresenta aqui um trabalho mais íntimo e pessoal. Assim como seus livros anteriores, esta também é uma produção independente.

Com 85 páginas, a obra é dividida em duas partes: poesias e reflexões. Diferente das narrativas de aventura e ambientação histórica de seus trabalhos anteriores, este quinto livro surge como um verdadeiro desabafo do autor. Nas palavras dele, a escrita nasce de um momento de reconstrução interior: um período em que afirma estar “vivendo o luto de si mesmo”, refletindo sobre escolhas feitas no passado e sobre o hábito de abrir mão das próprias vontades para agradar aos outros.

A obra revela um processo de dor, reconhecimento e tentativa de cura. O próprio autor explica que o livro “nasceu primeiro para doer”, pois foi necessário revisitar lembranças e sentimentos para depois ressignificá-los e buscar um novo caminho. Nesse processo, Keller aponta para uma jornada de autoconhecimento que ainda está no início, mas que já permite vislumbrar a possibilidade de paz e recomeço.

As poesias e reflexões surgem a partir da observação pessoal do autor sobre acontecimentos que lhe provocaram feridas emocionais. Talvez o livro não busque uma elaboração literária sofisticada ou grande riqueza poética, mas compensa isso com sinceridade e verdade. Cada texto parece escrito a partir de experiências vividas, carregando marcas de dor, aprendizado e amadurecimento.

Algumas frases presentes na obra resumem bem o tom reflexivo do livro, como:
“Se a dor do outro te faz feliz, sua alma precisa de remédio.”
“Nem tudo que você ouve, houve.”
“É incrível como você deixa de ser útil quando as pessoas perdem o controle sobre você.”

Nem tudo são flores é, portanto, um livro breve, direto e emocionalmente honesto. Mais do que uma obra literária tradicional, ele funciona como um registro de sentimentos e de um processo de reconstrução pessoal. É um convite para que o leitor também reflita sobre suas próprias escolhas, dores e caminhos possíveis de cura

SILVA, Marcello. 2026


sábado, 12 de abril de 2025

Resenha Literária: Guardiões da Profecia de Fábio Keller


A série Guardiões da Profecia, do autor paranaense Fábio Keller, é uma notável incursão ao universo místico e folclórico do sertão nordestino, e, partindo da pena de um escritor sulista que, curiosamente, nunca pisou no Nordeste, é ainda, mais louvável. Composta por A Contenda do Sertão e A Caçada a Lucius, a obra surpreende pela autenticidade e respeito às tradições culturais, espirituais e lendárias da região.

No primeiro volume, desenrola-se uma épica batalha entre o bem e o mal no coração do sertão. O bem é representado por personagens vibrantes como o padre Getúlio, os cangaceiros Gavião, Sanhaço, Sussuarana e personagens sulistas: velho bruxo tropeiro e o menino indígena Charrua — figuras que evocam a força do imaginário nordestino-sulista. Já o mal ganha forma num exército de mortos-vivos liderados pelo Bruxo Mor Crocotá, liderando jagunços, volates e outros bruxos como Bartolomeu, que personificam o medo ancestral das forças ocultas.

Já em A Caçada a Lucius, a narrativa mistura elementos do terror e da fantasia folclórica. Lucius, uma criatura híbrida entre lobisomem, vampiro, etc. devasta a pacata Serra das Flores. Os guardiões, agora reforçados pelo misterioso Padre Lucas e por uma criança enigmática chamada Bento, enfrentam dilemas morais e desafios místicos numa jornada que é tão introspectiva quanto heróica.

Keller faz lembrar o regionalismo mágico de Ariano Suassuna e a tensão entre o sagrado e o profano presente em obras como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. No entanto, seu maior feito é dar voz ao Nordeste com um lirismo próprio, respeitando seus mitos, seu misticismo e sua religiosidade, construindo uma obra que honra essa região profunda.

SILVA, Marcello. 2025